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O Casarão é o quinto filme nacional de 2021 com maior número de espectadores por sessão

Estreado comercialmente a 18 de novembro de 2021 e mantido em exibição nos Cinemas City até 19 de janeiro do presente ano, O Casarão foi o quinto filme nacional de 2021 com maior rácio de espectadores por projeção

O filme de Filipe Araújo, que desvenda os mistérios por detrás do seminário católico mais progressista de Portugal durante os anos da ditadura, manteve-se em sala dois meses, tendo sido a obra mais vista no Cinema City Alvalade durante a semana da sua estreia. Não obstante as restrições sanitárias impostas e os constrangimentos relacionados com o Covid-19, distinguiu-se ainda por nunca ter recebido uma sessão vazia.

Produzido pela Blablabla Media, com produção executiva de Hemi Fortes, co-produção da RTP e distribuição nacional da Zero em Comportamento, O Casarão contou com os apoios do Instituto do Cinema e Audiovisual e da Sociedade Portuguesa de Autores. Ao longo de 2022, assistirá à sua internacionalização, dando também início a uma digressão pelo país.

Apresentado pelo romancista João de Melo como “uma extraordinária narrativa, carregada de factos e de símbolos” e descrito pelos jornalistas Filipe Pedro (Lusa) e Maria Inês Gomes (Cinema 7Arte) como “um belíssimo poema” “repleto de raízes e de rostos”, várias foram as páginas dedicadas à obra na imprensa portuguesa. Para descobrir aqui.

 

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O Casarão chegou aos cinemas nacionais

Um velho edifício apodrece no coração de uma aldeia rasgada ao meio por uma estrada onde os carros já não param. O realizador Filipe Araújo quis desvendar os mistérios por detrás do antigo epicentro da terra. O Casarão, documentário de criação sobre aquele que foi o mais progressista seminário católico português durante a ditadura, é o resultado

Não raras vezes, para me adormecer, o meu pai efabulava a partir de histórias reais do seu passado. De todas, a mais enigmática tinha como cenário um território povoado por miúdos e homens de branco. Uma enorme casa sem electricidade nem águas correntes, entalada num vale rodeado de florestas. Foi depois da sua morte que uma inexplicável pulsão me conduziu até esse lugar.

E dessa pulsão de Filipe Araújo nasce O Casarão, que chegou aos cinemas a 18 de novembro, depois de uma antestreia na Casa do Cinema, em Coimbra, no contexto do Caminhos do Cinema Português. O filme, recordista de espectadores no Cinema City Alvalade durante a sua primeira semana em cartaz, desvenda o papel que o antigo seminário dominicano de Aldeia Nova teve nas vidas dos muitos rapazes que passaram pelas suas salas e corredores, e o destino que agora poderá ter.

No curso das ditaduras do século XX e ressaca das Grandes Guerras, o acesso ao conhecimento sistematizado para os estratos baixos da sociedade e nos contextos rurais, onde se encontrava o grosso da população, era praticamente nulo. Havia, contudo, duas exceções: a oferecida pela profissionalização militar e a via religiosa — encaradas como um dos raros passaportes para uma vida melhor. Foi esse o caminho percorrido pelo pai de Filipe Araújo, professor universitário e investigador científico, precocemente falecido. Nascido no seio de uma aldeia minhota, foi o único dos cinco irmãos a seguir os estudos. Conta que o fez aliciado pelo prior da terra, que lhe acenou com as mais excitantes disciplinas do saber, apresentando-lhe a vocação religiosa como um “dom para melhorar o mundo”. Tinha 10 anos quando ingressou no seminário de Aldeia Nova.

“A premissa deste projeto nasce da vontade de colocar em diálogo dois Portugais separados por um intervalo de meio século e ligados através de um mesmo edifício. É, portanto, um filme sobre finais de ciclo, mas também sobre um paradoxo. No caso, o paradoxo que é, em plena ditadura salazarista e num lugar carregado de isolamento, a “descoberta da liberdade” por parte de um grupo de pré-adolescentes a preparar-se para algo que nunca viria a ser”, explica Filipe Araújo, para quem a realização do documentário constituiu uma oportunidade de levantar o véu não apenas sobre um imóvel com história caído no esquecimento, como também sobre a improvável experiência feliz de mais de uma centena de vidas construídas entre dois mundos: o religioso e o secular.

Com esse propósito, O Casarão convida-nos a acompanhar a passagem de testemunho do antigo seminário através de António, caseiro do edifício desde o tempo dos padres, recuperando paralelamente as memórias dos seminaristas por intermédio de cartas, diários e textos dispersos entretanto reunidos.

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